Vamos pensar um bocado

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Na sequência dos atentados em Paris muito se tem dito pela Internet fora.

Parece que todos temos uma opinião sobre como lidar com o problema do terrorismo, mas muitos parece que não devotaram o tempo necessário a pensar no problema. E isso no meu ver é o maior problema que a nossa sociedade enfrenta.

Raciocínio Lógico

Provavelmente a melhor arma que o ser humano possui é o seu cérebro. Mas infelizmente a nossa sociedade não nos ensina a usar essa arma.

A maior parte do nosso sistema educacional existe para nos subjugar o pensamento à doutrina actual e aos correntes agentes de autoridade (professores, académicos). E eu não digo que isso seja totalmente mau, mas é sem dúvida insuficiente.

Nós, seres humanos, necessitamos urgentemente de (re)aprender a pensar por nós próprios.

Mas isso não é nada simples. Não o é em coisas banais, como se comer manteiga faz bem ou mal à saúde, e muito menos é em assuntos cuja complexidade é de tal forma grande, que é impossível que uma, única, pessoa no mundo tenha toda a informação necessária para fazer um juízo de valor 100 % correcto.

Mas o não ser simples não significa que não deva ser feito.

O Terrorismo e os Refugiados

E isto leva-me ao que quero aqui escrever hoje. O meu raciocínio sobre a questão do terrorismo e dos refugiados.

Em primeiro lugar quero despachar um ponto. Eu não tenho solução para o terrorismo. Tenho no entanto a intuição que não vamos resolver o problema com força bruta. E sim, eu sei que este parágrafo vai aparentemente contra o que disse acima, mas não vai. Eu simplesmente consigo reconhecer que não tenho informação suficiente para apresentar uma solução.

Vou então tentar raciocinar sobre uma parte mais pequena, mas não menos importante do problema. O fluxo de refugiados que tentam entrar na Europa.

Começo pelo pior cenário possível – 100 em cada 100 pessoas que fazem parte dos refugiados em migração para a Europa é um terrorista. Sem me basear em qualquer notícia em particular é seguro afirmar que só este ano mais de meio milhão de refugiados entraram dentro do espaço Schengen (algumas fontes indicam 750.000, mas vamos ser conservadores).

Este cenário queria dizer que existem meio milhão de terroristas no solo Europeu. Nós não temos a total certeza, mas novamente deve ser seguro afirmar, que os que participaram nos ataques em Paris fossem menos de 50.

Será que estes números fazem sentido? Se eu tivesse um exercito de 500.000 não ia usar somente 0,001% dessa força num ataque, que já saberia teria como repercusão que ataques subsequentes se tornem mais difíceis.

Posso sempre pressupor que isto faz parte da tática, e que algum objectivo que eu não compreendo foi alcançado. Mas existe um principio chamado Occam’s Razor que diz:

Among competing hypotheses, the one with the fewest assumptions should be selected

Ou basicamente entre várias hipóteses a que for mais simples (do ponto de vista dos pressupostos) deve ser válida. Agora é claro que isto é uma simplificação, mas, se queremos raciocinar por nós próprios sem recurso a “notícias” ou outras fontes de informação que não podemos garantir serem fidedignas, então temos de fazer algumas concessões pelo simples facto que não temos toda a informação.

Parece-me válido afirmar que será altamente improvável, para não dizer impossível, que todos os refugiados sejam terroristas. Isto significa que pelo menos uma pessoa em cada 100 seria inocente (a mudança de 1% no argumento anterior não o muda substancialmente). E atenção que nem sequer estou a contabilizar crianças, porque quem argumentar que um bebé de 2 anos possa ser um terrorista é alguém com quem não quero debater.

Isto leva-me a um problema muito complexo, e aquele que eu considero que nós como sociedade devemos debater abertamente.

Em maior parte dos sistemas de países considerados desenvolvidos existe na lei a presunção de inocência. E isto existe, não por que nós assumimos que os nossos cidadãos são maioritariamente inocentes, mas porque partimos de um valor importante. É preferível soltar um culpado do que condenar um inocente.

Será que devemos aplicar o mesmo valor aqui? A vida de um inocente que nos está a pedir ajuda versus a possibilidade de ele nos estar a mentir e ser um terrorista.

Não é uma resposta simples. Se alguém consegue responder a esta pergunta rapidamente, eu atrevo-me a dizer que não pensou suficientemente no problema.

Sentiria-me mais seguro se fechássemos as fronteiras? Claro, mas da mesma forma me sentiria mais seguro se todos os cidadãos Europeus que fossem levados a tribunal por indícios de crime fossem todos presos preventivamente durante 10 anos. Mas essa segurança trazia com certeza um peso muito grande na minha consciência – quantos inocentes estariam privados de viver a vida para eu me sentir seguro?

As mortes de Paris, e de todos os outros cantos do mundo com o mesmo problema, estão na consciência dos terroristas. Foi pelas mãos deles que estas tragédias têm acontecido.

Se nós viramos as costas aos inocentes que nos pedem ajuda, passa a estar na nossa consciência o peso dessa decisão. Se nós fecharmos as portas da Europa e os inocentes que forem forçados a voltar aos seus países forem mortos, já não são só os terroristas que são responsáveis, somos nós também.

Agora com base neste raciocínio a minha conclusão é obvia. Nós, Europa, devemos continuar a ajudar o máximo de refugiados possível, sem deixar de tentar prevenir que agentes terroristas entrem no nosso solo. Uma não invalida a outra.

Se olharem para as palavras que escrevi com rigor, não vão encontrar grandes falhas de raciocínio. No entanto eu compreendo porque não é fácil lá chegar. Por um lado temos vidas longínquas e por outro vidas próximas, e é sempre fácil a emoção entrar e tomar conta de nós.

Façam estes exercícios com seriedade:

Se estivessem vocês na fronteira, em vez de soldados anónimos, e vissem uma família a pedir asilo conseguiam dizer que não? Conseguiam fechar a porta?

Se vos dessem para a mão o detonador de uma bomba, e a informação que essa bomba iria matar 99 terroristas e 1 inocente. Carregavam?

É muito mais difícil quando a situação não é abstrata.

Por fim quero salientar um ponto que acho importante. Eu termino este raciocínio na hipótese de que 99 em cada 100 refugiados é um terrorista, mas atrevo-me a dizer que a probabilidade do rácio ser exactamente oposto é muito maior. Mas este atrevimento já é pura intuição.

Vamos procurar a Paz

Este é um momento crucial na nossa Europa. É a altura onde nós decidimos, com o nosso voto e com a nossa voz na rede das redes, que sociedade queremos ser. Se uma sociedade de paz e compaixão ou se uma de guerra. E antes de responderem em segundos, com emoção, pensem por vocês mesmos, pensem que os nossos filhos vão ter de viver com a nossa decisão.

Para não acabar este texto em tom sombrio deixo-vos uma citação de um comediante, o George Carlin:

Fighting for peace is like screwing for virginity

Se concordam com o que escrevi aqui, partilhem. A melhor coisa que podemos fazer agora é levantar a nossa voz a favor da Paz.